Chile – São Pedro do Atacama

G8

A mudança de pais era nítida logo nos primeiros quilômetros na estrada lisa e bem sinalizada. Arrisco não haver estrada tão boa no Brasil. O deserto também ia mudando, ficando avermelhado e mais acidentado. E em algumas horas chegamos na alfândega, um prédio pequeno e bem conservado em contraste com as casas humildes ao redor. Achei bem tranqüila e os funcionários eram todos bem educados e sorridentes. Infelizmente tive que deixar minhas folhas de coca para trás (no Chile é proibido).

Carimbo Chileno no passaporte e partimos para São Pedro. Não sabia bem o que esperar, estávamos a dois dias e meio sem falar com o resto do grupo. Também estava com fome, cansado e sem tomar banho a 3 dias. A cidade do Atacama era literalmente uma cidade no deserto com ruas pequenas de terra batida e casas mais ou menos da mesma cor ou algumas poucos brancas e de madeira. Se não me engano há duas ruas principais e outras poucas menores cruzando. Descobrimos na lan que o grupo estava indo embora, nos assustamos e fomos ao encontro deles no hostel esclarecer as coisas. Os achamos na rua. Foi aquela gritaria brasileira, espontânea e ficamos no meio da rua nos abraçando e falando palavrão. Então veio o bombardeio de informações. Eles argumentavam que São Pedro era muito caro (fato) e que havia quase nada para fazer(muito estranho). Pressionaram para que nós quatro que estávamos no Licancabur fossemos embora com eles e acabamos cedendo.

O argumento deles era realmente válido, porém desconfiei se não era porque eles estavam em outra vibe. A cidade é realmente muito cara, como um bairro rico turístico brasileiro, Copacabana, por exemplo, mas achei a idéia deles muito precipitada e camuflada por terem acabado de sair da hiper barata Bolívia. Afinal o deserto do Atacama é um dos mais famosos do mundo. Desconfiei que fosse besteira sair daquele jeito da cidade e depois concluí com o relato de outras pessoas que realmente foi. O Atacama é um lugar para pelo menos curtir dois dias. É claro que isso varia com o jeito de viajar de cada um e na época decidi que não queria me separar deles (todos ainda estavam apreendendo a viajar). E o lado bom seria ter um tempo folgado para chegar a tempo em cuzco.

No hostel pudemos tomar um ótimo banho gelado e forte depois de dias sem uma ducha decente.  Utilizamos mais uma vez o clorin e a água ficou ótima. Teríamos a tarde para conhecer a cidade até pegar o ônibus(uns 10 reais) lá pelas 17:30. Andamos um pouco até achar um lugar para almoçar. Paramos no lugar onde vendia frango assado e batata (1800 pesos ou 6 reais)((nada mal não!?)). O lugar fica perto da praça principal. Trocamos mais dólares e passeamos pela cidade vendo as lojas, bastante assediados pelos vendedores que praticamente nos buscavam na rua. Na troca de dólar tive a experiência chata de recusarem minha nota de 20 dólares. Um pequeno detalhe, um pequeníssimo rasgo (bullshit).

Depois da volta relaxamos na praça. A praça é bem agradável, arborizada e cheia de turistas, guardas, mochileiros e prostitutas discretas. Era fácil distinguir todos, a nacionalidade também. Cada um guardava sua característica. Os cabelos dourados e pele maltratada de sol dos gringos nórdicos, a vestimenta engraçada de aventureiro do turista vovô americano, as saias cumpridas dos mochileiros argentinos “doidões” e seus cabelos dreads, as putas com suas roupas não tão apelativas para olhos brasileiros, mas muito para olhos chilenos…

Ouvi um barulho de violão longe, nossa que saudade do violão. Falei com Gustavo e fomos verificar. Um senhor chileno do outro lado da praça tocava. O estilo era folclórico – romântico muito bonito. Ali perto sentei e fiquei ouvindo. O violeiro percebeu nosso interesse e conversamos sobre músicas Chilenas e Brasileiras. Ele disse que era apaixonado por bossa nova, Roberto Carlos e djavan. Alias o Rei é famoso em todos os lugares que passei. Ofereceu o violão e toquei. Sensação incrível, toquei desajeitado um samba do Jorge Bem e continuei mais seguro com um Rappa. Ganhei alguns aplausos tímidos, adorei. Ele tocou mais duas e deixou o violão comigo. Gustavo pois o boné no chão e comecei a tocar mais e com mais vontade. Chamei alguma atenção, os gringos do restaurante caro na frente olhavam e outro deixou uma moeda no chapéu, para nossa pequena felicidade. Primeira vez que ganhávamos um dinheiro tocando em praça. O moço levou o violão embora e daquele momento em diante não iríamos sossegar enquanto não comprássemos um violão.

Conversamos com muitas pessoas naquela praça, mochileiros a maioria. E conhecemos 3 garotas de Florianópolis. Sinceramente na hora imaginei que seriam mais umas brasileiras que veríamos para nunca mais. Mal sabia que elas balançariam deliciosamente nossa viagem num futuro próximo.

Já no ônibus sentei com meu amigo Gustavo e falávamos do clima bom que estava na praça e do sentimento que estávamos perdendo algo saindo tão cedo de lá. Decidimos não pensar mais nisso, conversar animadamente sobre a compra do violão, falar de mulher, de família e de desigualdade…

Gustavo me falava de suas idéias político-sociais. Ele fazia vídeos contra empresas como Coca-cola que financiavam guerras e tinha um hábito que julguei incrível. Ele não consume produtos oriundos de empresas politicamente incorretas. As piores. Como a Nike e Adidas que já foram condenadas por terem pessoas trabalhando num regime de semi-escravidão e menores ganhando misérias. Depois desse papo decide fazer um pouco e parei de beber refrigerante desde então, especialmente qualquer produto da coca-cola(um começo).

Entre as conversas admirei o estonteante deserto chileno, mega avermelhado e intenso. O pôr-do-sol bailava lento e sentia-me num filme antigo rubro com a música de Jimi Hendrix arrebentando os ouvidos. Não cansava de olhar pela janela. Olhei um pouco para dentro e percebi que estava bastante mudado. Sentia uma segurança e uma calma antes nunca experimentadas.

Anúncios

Sobre Yuri Mota

Sou Yuri Mota, carioca, estudante de engenharia, mochileiro, amante da boa música,de violão, canto e também amante de robôs e automobilismo. Amo a vida, me considero um privilegiado e gosto de tantas coisas que é difícil resumir aqui. o blog é sobre minhas viagens, minhas impressões e idéias sobre tudo que acontece ou não. Dando uma atenção especial ao estilo de viajar mochileiro, a reflexão sobre o comportamento humano e a pratica de trekking. É isso, leia e comente, por favor.
Esse post foi publicado em Chile. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Chile – São Pedro do Atacama

  1. Bárbara disse:

    Passou o chapéu heim!! Muito bom! Lendo seu blog e quase sempre passando por aqui rs.
    bjs
    Bárbara

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s