Licancabur – A Montanha Mágica

Ascensão

2:00 – Acordo suado e com frio. Meu corpo não estava bem, acho que estava febril. Forço e durmo. Sonho com lhamas, uma caminhonete passeando no deserto sem parar. Outro cenário. mulheres nuas, mulheres que amo. Nada erótico, era triste e depressivo. Acordo e temo pela minha condição física no trekking. Penso que aquilo era influência do deserto, como se tivesse testando minha força. Tenho mais sonhos esquisitos.

2:30 – Alarme toca e foi difícil sair da cama. Acordei meio quebrado. Levantei rápido e comecei a arrumar minha mochila, decidido.

3:00 – Macário(nosso guia Jedi de 64 anos) batia forte na janela junto com seu filho Juli de uns 10 anos. Tomamos café: panquecas grossas, chá de coca, manteiga e “café”. Todos comiam calados. Gustavo não parecia bem.

3:30 – A caminhonete roncava forte e a lua iluminava pouco a estrada invisível aos meus olhos. Descansava o máximo que podia, cochilava e admirava o deserto que conseguia ser incrível e misterioso na escuridão da noite. Pensei nos meus sonhos e tive certeza que aquele lugar emitia uma energia forte e caótica. Um lugar sagrado.

4:10 – Depois de Macário ter saído da estrada, andava contornando o vulcão, imagem incrível na escuridão. Paramos. Todos Preparados. Macário ensina um pouco sobre trekking nas montanhas. Chega o momento tão esperado.

O grandioso Licancabur está na minha frente. Oro fortemente para fazer o meu melhor.

Começo de trilha leve.  Todos um pouco nervosos e, Gustavo, pela primeira vez na viagem, estava calado o tempo inteiro.

4:40 – Agora começava a trilha mais pesada. Era bastante íngreme. Exigia-se muito das pernas e precisava ter um ritmo consistente. Gustavo respirava grotescamente. O resto subia bem e o ritmo de Macário era forte.

5:30 – O dia amanhecia e agora começava a parte de pula-pedra, o que exigia bastante do físico. As pedras faziam a gente escorregar, o que nos exigia fazer o dobro esforço. Sofria um pouco com aquilo.  Edu e Lali estavam tranquilos e Gustavo estava aos frangalhos:

– Yuri, vou desistir! Não agüento mais, estou passando mal…

– Vamos Gustavo, não vai desistir, porra !

Empurrei até ele não aguentar  mais (uns 15 min). Lamentei e vi em seu rosto uma expressão que vi poucas vezes na viagem: derrota e algo longe, do passado e profundo. Despedi-me, com firmeza, enquanto Macário dava instruções para voltar até o veículo.

6:30 – A subida estava cada vez mais pesada. Respirava profundamente, comia chocolate e botava mais folha de coca na boca. Escorregava e desequilibrava.

7:00 – Sentia medo de fracassar. Estava fora de ritmo. A altitude roubava meu ar e minha orientação.

(…) Respiração: Era aonde a altitude matava. Não respirava bem. Tentava de tudo. Ritmar, contar… 1,2,3,4  4,3,2,1… Seguia os passos.

(…) Folha de Coca: Mascava coca com vontade e fé. Percebia pela primeira vez o efeito eficiente que a coca causava no organismo. Naquele dia, sem coca, não subiria nem metade do que subi.

(…) Orar: Ajudou-me bastante. O mental forte é essencial. Aprendi mais sobre isso nos outros trekkings.

8:00 – Paramos no meio do caminho. Estava exausto. Macário disse que eu estava com um ritmo muito lento e mandou voltar. Briguei, protestei e prometi que iria desistir se não acompanhasse o ritmo do grupo. Ele engoliu e continuamos. Lali perguntou se eu queria uma foto ali e respondi que só tiraria foto quando chegasse no top(tenso).

8:30 – Acompanhava Lali de perto, tonto, cambaleando… Edu me ajudava. Até que quase caí, sem ar. Tentei seguir e, mais tonteira. O vulcão rodava. Edu me dava força com as palavras, mas eu sabia, ali era o meu limite. Cumpri minha promessa e desisti. Juli ficou comigo e os outros continuaram. Descansava sentado, não conseguia sentir nada, nem raiva, nem tristeza, nem alegria, nada. Subi mais um pouco até um tal mirante. Rastejava pelas pedras, cansado e hipnotizado. Cheguei até o tal mirante, vi a laguna verde a minha frente, brilhante e linda. Com uma expressão séria, prometi em voz alta que voltaria, chorei umas poucas lágrimas e senti orgulho de ter chegado aos meus 5400 metros, começando por 4300m  no Vulcão Licancabur, fronteira com Bolívia e Chile.

Descida

Descia bastante tonto e o cansaço batia forte. Para novatos uma descida de montanha pode parecer fácil mais é uma das coisas mais difíceis e perigosas. Força muito o joelho e normalmente descemos rápido, às vezes correndo.

Juli me contava histórias da região. Os locais acreditavam que as pessoas que morriam nas montanhas viravam zumbis e, às vezes, apareciam à noite ameaçando quem se atrevesse a chegar perto. Muitos ouviam gritos nas madrugadas.

Eles também usavam a natureza para se tratarem de doenças e mazelas. Ele me explicava o efeito medicinal de cada flor e como se faziam os tratamentos. Uma flor se esfregava na parte onde estava dolorida e aliviava a dor. Outra se bebia para limpar o estômago.

Desci e vi as ruínas dos Incas. Eram simples e só havia muros e pedras. Num momento, andava até a caminhonete com Juli até que ele parou. Ele começou a recuar tenso e com expressão de medo no rosto. Então, virou e começou a correr. Não pensei duas vezes e mesmo hiper casado corri tanto quanto ele (muito) e quando estávamos longe desabei como uma vaca gorda no chão. O garoto explicava quase chorando que tinha visto um lagarto. Imaginei logo um Dragão de Komodo e ele descreveu um animal pequeno do tamanho da palma da mão. Estava quase batendo no moleque por ter me feito correr daquele jeito quando ele disse que o bicho era venenoso e caso mordesse uma pessoa não duraria nem um dia (depois Macário confirmou ).

Meu pequeno amigo também me contou dos Deuses e ali na montanha o Tio (diabo) dominava. E que alguns eventos tinham significado. Caso você visse um gato-selvagem atacando um coelho-selvagem significava que você teria sorte no seu investimento. E etc…

Cheguei ao carro, dei um abraço no Gustavo e descansei um pouco. Enquanto isso, ouvia noíicias dos outros na ascensão. Eles foram bem até uns 5700 metros. Então, Eduardo desistiu. Segundo ele, faltou perna. Depois ouvi feliz que Lali havia chegado ao Topo. Estava exausta e tinham muitas dificuldades para descer. Esperamos um bocado até que eles chegassem. Os dois estavam péssimos e meio idiotas. Impressionei-me com a frieza que Lali descreveu a chegada ao topo. Eu iria chorar, gritar, pular e ela descreveu como se tivesse feito um trilha comum pelo Rio de Janeiro (really strange).

Na volta, Macário nos sacaneou falando que só uma mulher tinha conseguido subir, falou que os homens brasileiros estavam com nada. Foi bem engraçado e prometemos que iríamos voltar para subir com ele. Também combinamos que ele iria ter que matar uma lhama para cada um (estávamos famintos). Ele riu bastante da piada que aliás, foi sucesso entre todos os hermanos que brincamos(vai entender, rs).

O ônibus para o Chile sairia na manhã do outro dia, então ficamos na hospedaria do Macário. Lá, era realmente aconchegante e rústico. As janelas dos quartos não possuem cortinas e davam para corredor. Num momento em que só tinha homem no quarto fiquei com preguiça de ir até o banheiro, olhei o corredor vazio e tirei a roupa ali mesmo. E no momento em que estava levantando a calça, a cozinheira, senhorinha, passou. Viu, fiquei com cara de bocó, e ela deu uma risadinha e foi embora pelo corredor. Fui zoado até a alma pelos três.

Os outros dormiram podres enquanto eu e Gustavo comíamos uma sopa bem esquisita com várias sementes. Gustavo falou que era uma sopa mágica para eu me apaixonar pela velha que tinha me visto pelado (não mereço ¬¬).

Dormi um sono de quase morte e acordei à tardinha. As brincadeiras foram ótimas. No grupo, existia a brincadeira de achar os cariocas malandros e gatunos. Então, usamos a fama para roubar o Catarinense Eduardo que acordou quase pelado, sem os dois cobertores e já ia perdendo o último.

Jantamos com um grupo misto: um casal de Nova York, um americano tipo nerd e uma japonesa linda tipo aquelas que aparecem em anime (kawai), tutorados por um guia chileno,  bonitão de cabelos longos, num rabo de cavalo. O estadunidense confessou que comprou um quite de roupas e acessórios para o caso de ataque de armas biológicas (época do Antraz) e quase comprou um quite de pára-quedas para pular de um arranha-céu em caso de ataque terrorista (época do 11 de setembro). O chileno falava das desavenças existentes entre chilenos, peruanos e bolivianos. Explicava que aquilo era fruto da inveja porque os chilenos eram organizados, disciplinados e tinham um país melhor (no comments).

À noite, já sem luz, precisei ir ao banheiro e o caminho era bem sinistro.  Edu brincou falando que a velha da hospedagem estava me esperando lá. Eu, pensando em monstros, animais perigosos e ETs, sentiram muito mais medo por essa hipótese do amigo. Dormimos com o vento forte que parecia que ia derrubar a hospedagem e o pagode do Exalta Samba do telefone de Lali.

No outro dia, ganhamos uma carona do Macário até a fronteira. Negociamos facilmente as passagens do mini-onibus e recebemos orientação para deixar qualquer produto boliviano, folha de coca, marijuana, cocaína, haxixe, e etc…

Indo para Hospedagem do Macário depois do Reencontro. Diego, larissa, Edu e Cris.

Macário, Gustavo, Edu, eu e Lali

Macário nosso Mestre Jedi e seu filho Juli

Juli tomando coca no meio do nada.

5400m

Laguna

Algumas coisas importantes que aprendi:

– Quando subimos um trekking difícil desses, suamos muito, cuspimos, toda hora sai meleca, catarro e água do nariz. Escorregamos e nos sujamos com lama e outras coisas. Ou seja, ficamos imundos e nem ligamos. Esfregando a sujeira do rosto e do nariz nas mãos entre outras coisas nojentas. E lá, ainda foi pior porque não podemos tomar banho por três dias. Só no lenço umedecido e desodorante. Bonito, né?

– Climatizar é essencial. Tente sempre chegar dias antes na montanha, caminhar bastante, fazer esforço físico, dormir bem nos dias anteriores, não beber e comer bem. Isso é muito importante para chegar ao cume.

– O ritmo do nosso guia estava muito rápido. Foi desnecessário e eu me senti intimidado na hora de pedir para parar. Mas quando passar por situação parecida, não faça como eu, peça para parar. Se parar de 25 a 25 minutos não tem problema e não vai atrapalhar ninguém.

– As roupas não foram essenciais como eu pensei. Pelo menos nessa época do ano não faz tanto frio. Agente pegou uns 3 graus quando chegamos de madrugada e com pouco vento. Utilizei 3 camadas: anorak, fleece 200 e segunda pele. Achei necessário apenas fleece e segunda pele e no final tava usando apenas segunda pele. Luvas são necessárias, mas podem ser luvas normais. Meias boas são sempre bem vindas e Botas boas essências. Alias minha bota Nomade Titan foi perfeita em toda viagem, serviu para tudo e não falhou.

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Sobre Yuri Mota

Sou Yuri Mota, carioca, estudante de engenharia, mochileiro, amante da boa música,de violão, canto e também amante de robôs e automobilismo. Amo a vida, me considero um privilegiado e gosto de tantas coisas que é difícil resumir aqui. o blog é sobre minhas viagens, minhas impressões e idéias sobre tudo que acontece ou não. Dando uma atenção especial ao estilo de viajar mochileiro, a reflexão sobre o comportamento humano e a pratica de trekking. É isso, leia e comente, por favor.
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5 respostas para Licancabur – A Montanha Mágica

  1. Julia disse:

    Muito legal!!! Fiquei mais empolgada ainda para minha vez na montanha mágica em junho…hehehehe.
    Apesar de vc não ter chegado ao cume, aquela vista do mirante é divina. Toda experiência é única. São sensações diferentes a cada tentativa.
    Parabéns pela trajetória!! Pois como eu sempre digo, o mais gostoso da vida é a caminhada…
    Bjus!
    Julia

  2. Pingback: O VULCÃO CHACHANY « Plano Andorinha Sagaz

  3. Mario Nery disse:

    Cara esse moleque é o capeta, o filho do Macário manda bem nas montanhas, puxou o pai. Ele me acompanhou também na subida do Lican, que por sinal eu também não fiz o cume. Vulcão maravilhoso. Saudades de lá.

    • Yuri Mota disse:

      Macario é um mestre jedi. huahuahuah E o moleque sobe aquilo do jeito que ele quer. Correndo, pulando, comendo salgado gorduroso, coca-cola e ainda enchendo agente. rsrs
      O lican é mágico.

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