SALAR UYUNI – Terceiro Dia

A tarde

Andava com Larissa no meio do nada, sentia uma liberdade incrível, estávamos perto de uma laguna enorme e podíamos vê-la de um mirante natural enquanto caminhávamos. Olhava Lali falando e tentava entender o que era aquela garota brasileira, carioca e descendente de japoneses. Uma mistura de malandragem carioca, com sotaque e falar tranquilo típicos dos apreciadores da natureza. Junto a isso, certa frieza no olhar e nas ideias, principalmente , dificuldade de juntar o material com o imaterial. Era uma figura fantástica que descarregava naquele momento tudo o que pensava a respeito da viagem, do grupo e da minha pessoa. Fiquei agradecido por isso, nada melhor do que uma conversa sincera e profunda.

Enquanto refletia sobre meu egoísmo e imaturidade com respeito à coisa mais importante para um homem, via os flamingos na laguna e sentia meu cabelo ressecado com o sol. Vimos uma mulher correndo embaixo, na beira da laguna. Provavelmente, se aclimatando para subir as montanhas. Não sabia nada sobre isso naquele momento, vim descobrir depois que estávamos mal preparados para nossa próxima aventura: o vulcão Licancabur.

Lembro de horas na fronteira Bolívia – Chile. Já havia combinado com Andreas, nosso motorista, uma carona até onde o Macário morava (Ele seria nosso guia). Lá, confusão e correria devido a não organização dos bolivianos. As britânicas Emma e Joanne confusas, não haviam comprado as passagens para o Chile devido a uma informação errada. Meus amigos chegaram logo depois, perdidos, sem saber o que fazer para poderem ir onde o Macário estava e Andreas me chamava, autoritário, para que partíssemos. Vendi uma passagem para Joanne e pedi para Gustavo vender a outra para Emma. Tentei encontrar uma carona para os outros e não consegui. Despedi-me rapidamente do grupo, das inglesas e entrei no carro, para alívio de Andreas. Os três que iam comigo apareceram quando eu já estava dentro do carro, esperaram uma ajuda e fiz o melhor que pude, falando rápido. No final, fui para o departamento de proteção ao parque pensando em várias coisas que eu poderia ter feito. Poderia ter insistido com o Andreas para ele dar uma carona aos meus amigos e outras coisas.

Larissa reclamava sobre isso esperando uma atitude de liderança. Já havia desistido desse papel fazia dias. Na verdade, depois da viagem conclui que o melhor é ter na cabeça que cada um faz a sua viagem e não se deve limitar a outra pessoa. Assim, todos ficam satisfeitos e naturalmente as pessoas ficam juntas por afinidade e não por algo determinado. No começo, tive medo desse pensamento, mas depois foi o que fez mais sentido. Na época, ainda não havia concluído isso, mas no final voltávamos bem para o hostel, aliviados e com o pensamento na montanha.

O hostel ficava em frente ao departamento e fui aconselhado pelo guarda do parque que gentilmente ajudou-me quando cheguei. Despedi-me dos amigos brasileiros efusivamente e quando chegou o casal americano, foi um tanto frio. Quando abracei Michelle senti uma frieza e ela ficou totalmente sem jeito (eles são definitivamente diferentes). “Suerte Chico”. Apresentei-me convidado pelo olhar do guarda e percebi que tinha um garoto com ele.

– Señor, ¿por favor, donde puedo encontrar Macário?

– ¿cuál es su nombre?

– Pardom, yo soy yuri.

– Soy Jorge.

– Por favor, ¿Dónde puedo encontrar Macario?
– Macario se encuentra en la montaña ahora, aquí está su hijo, puedes hablar con él.
– Olá… Soy juli. Voy a llamar a mi padre.
– ¿Quieres subir a la montaña?
– sí.
– ¿Cuántas personas?
– 4.
– bueno.

Enquanto esperava juli falar com seu pai no rádio, o guarda indicava-me a hospedagem em frente.
– bueno, él estará aquí más tarde para combinar con ustedes.
– Muchas gracias.

Ia entrar na hospedagem, porém senti que tinha que ficar ali esperando os outros. E estava certo, o carro deles quase passou direto. Larissa, séria, pediu-me uma conversa para mais tarde. No hostel, fomos atendidos rapidamente. Lugar luxuoso perto de todos os outros que experimentamos e ouso dizer que tinha a melhor cama da viagem. 30 bolivianos e mais 30 para o almoço janta. Claro, tudo isso depois de muita negociação com a recepcionista e a cozinheira. Tudo resolvido e caminhei com Lali.

Hostel

Voltamos com o vento forte e foi um alívio entrar na hospedagem. Juntamo-nos a mesa e comemos bife de lhama com arroz, salada e sopa de entrada. Não era muita comida, mas estava bom. Macário chegou logo depois. Sinceramente, foi bem diferente do que havia imaginado. Imaginei um homem lá pelos 45, forte e equipado. Ele era um senhor de (64 anos), marcado de sol e de vestes simples. Andava curvado e veio com seu filho. Concluímos depois que ele é um jedi, estilo Yoda. Senhor simpático, simples e educado que mostrou-se difícil de negociar, mas no final achei 25 dólares por cabeça bem barato para um guia como ele. Fechamos e marcamos 3 da madruga com o mestre. Sabemos que nosso amigos, separados em Santa Cruz, tinham acabado de subir a montanha com eles.

Enquanto esperávamos por eles, Gustavo passava mal. Acho que foi a bebedeira do dia anterior, junto com o mal da altitude. Isso gerou várias piadas e no final, a cozinheira, uma senhora tipicamente boliviana, soube e ofereceu um chá.

– ¿Qué tipo de té, señora?
– té de cactus.

Há vários tipos de remédios caseiros no deserto e os locais sabem fazer bons chás de flor de cactus contra vários tipos de sintomas. O mais famoso é o chá de cactus alucinógeno que dizem ser o mais forte do mundo. Disso saiu esse vídeo:

Depois chegaram nossos amigos. Falaram emocionados sobre o vulcão. Só Marlon conseguiu chegar ao cume, mas Diego e Cris estavam orgulhosos de terem chegado aos seus limites. Eles estavam hospedados na casa do Macário. Era em frente à laguna. O lugar era sinistro no escuro, porém me senti em casa. Um lugar totalmente mochileiro. Pessoas de vários cantos (não muitas), beliches, banheiro pré-histórico e, definitivamente, no meio do nada. Chegando lá, falamos do grupo, trocamos histórias e concluímos que o deserto ali era um lugar precioso e único. Comemos mais carne de lhama e compramos uns chocolates para o outro dia.

Saímos num breu impressionante, estávamos meio desorientados só com uma lanterninha emprestada pelo Diego (obrigado meu amigo). Dava medo e, de vez quando, Larissa pulava para cima de mim ou do Edu, enquanto tentávamos nos manter na estrada. Estava longe da conversa deles,  lembrava de Carol. Caroline é mineira e do interior, era simples ficar ao seu lado, raramente reclamava e estava sempre disposta, queria tanto quanto eu subir o Licancabur e na hora da confusão na fronteira ficou com medo de ir, não queria atrapalhar o grupo. Veio falar comigo, acho que esperava apoio, insistência. Eu praticamente fui burocrático e direto. Fiquei muito arrependido, devia ter insistido, ela estava perdendo algo grande. Um carro passava ali nos salvando do frio e da escuridão. Ergui meus braços mais rápido que um pugilista profissional e ganhei uma carona.Senti-me mochileiro.

No hostel Gustavo parecia melhor, mas ainda estava meio pálido. Estávamos ansiosos, eufóricos e felizes com o reencontro e a montanha. Enquanto tentava dormir, pensei no dia, que foi mais uma vez intenso e agradeci fortemente ao cosmos por estar ali, dormindo com 4 grandes amigos, no meio do deserto e perto da montanha mágica Licancabur.

A manhã

Saí às 3 da madrugada, acompanhado por lanternas de todos os tipos, incomodado especialmente pelas de leds, machucavam os olhos. Tonto, ainda de ressaca, estava eu no 4×4 contemplando o deserto na escuridão, vendo de longe os veículos adiantados no horizonte e para ser fiel, apenas via os espectros dos faróis, sendo este, o único resquício de humanidade naquele lugar ermo. Quando chegamos aos gêiseres, o sol ainda estava tímido e fraco. Admirei mais uma vez a natureza extrema daquelas partes. Aproveitei o ar quente saído das profundezas e olhei, hipnotizado, a lama que borbulhava naquele inferno romântico encarnado.

Lentamente subimos por morros pequenos. Emma sorria para mim. Eu não queria falar nada naquele momento, estava sonhando ainda. Tive certeza disso quando vi o sol nascer e a liberdade invadiu meu peito novamente. Abri a janela e pendurei-me com metade do corpo do lado de fora. Senti e eternizei aquele momento dentro de mim.

Geiser

Flutuava nas águas termais de 40 graus e olhava o sol que ainda nascia e projetava grandes sombras no chão. O café do querido Andreas estava bom; um bom chá de coca e um yogurt para me acordar. Novamente uma miscelânea de pessoas multicoloridas na piscina improvisada. Tentei comunicação com as terras do sol nascente. Foi breve e sem sal. Os orientais da viagem foram todos tímidos e de difícil acesso. Fiquei curioso e quero tentar mais numa outra viagem.

Fora uns 7 graus e dentro 40 e poucos.

Londres ria do Rio olhando a montanha. Dizia que ele parecia uma criança com um brinquedo novo. Rio falou que queria era brincar com ela. A terra do rock então sorriu charmosa e foi para trás dos montes. A terra do samba a encontrou. A Moça nada falou e o garoto era só felicidade.

A montanha mágica Licancabur

Acordei do devaneio e vejo a adorável Larissa com seus olhos profundos olhando desconfiada. Foi tudo um sonho.

Anúncios

Sobre Yuri Mota

Sou Yuri Mota, carioca, estudante de engenharia, mochileiro, amante da boa música,de violão, canto e também amante de robôs e automobilismo. Amo a vida, me considero um privilegiado e gosto de tantas coisas que é difícil resumir aqui. o blog é sobre minhas viagens, minhas impressões e idéias sobre tudo que acontece ou não. Dando uma atenção especial ao estilo de viajar mochileiro, a reflexão sobre o comportamento humano e a pratica de trekking. É isso, leia e comente, por favor.
Esse post foi publicado em Bolívia e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s