MINAS DE CERRO RICO – This is Bolívia

o grupo e a mina ao fundo.

Acordamos relativamente cedo, estava frio. Levantei com o pensamento na nossa próxima aventura, me desliguei disso, pois queria aproveitar o passeio virgem de idéias pré-concebidas. O café foi no hostel com todos acordados. Pão, geléia, café, chá de coca e manteiga. Tudo contadinho, três para cada. Comemos e esperamos a van chegar. Éramos apenas uma parte do grupo, três desistiram porque eram claustrofóbicos. Conhecemos a guia, uma senhora de 1,40 mais ou menos, no estilo tradicional boliviano sem as roupas típicas (ela parece-me a versão feminina e boliviana do mestre dos magos). Uma figura de voz firme, espanhol claro e destreza impressionante. Ela iria nos guiar pelas minas que tornaram a Espanha o país mais rico do século XVI, As Minas de Cerro Rico, que eram famosas por serem gigantescas e por seus trabalhadores ainda trabalharem como no tempo que eram dominados pelos espanhóis. Então a van nos levou até um mercado popular onde achamos umas das coisas mais inusitadas da viagem. Era uma rua de ladeira onde havia barraquinhas com senhoras (cholas) que vendiam coisas para quem queria visitar as minas. É tradição os visitantes darem regalos (presentes) como refrigerantes, folhas de coca e outras coisas como essa aos mineiros. E durante essas compras aconteceu mais ou menos assim:

Vimos um objeto cilíndrico na vasilha da senhora do lado das folhas de coca:

– Senhora, Que és isto?

– És dinamite. Quieres una?

Todos olharam atônicos, eram varias bananas de dinamite na vasilha da senhora, com pavios e saquinhos que serviam para potencializar uma explosão. Vendo nossos olhares surpresos a senhora disse:

– Hago um precio mais baratos. 15 bolivianos (5 reais).

Isso mesmo, por lá podemos comprar quanta dinamite quisermos com todo o quite por 5 reais. Achei demais e obviamente compramos para o deleite da senhora. Hehehe

Dinamite + intensificador + vontade de fazer besteira = sorriso no rosto

Pegamos nossas roupas de mineiro como se pode ver nas fotos e fomos felizes para as minas. Passamos por uma área bem pobre e em alguns minutos chegamos às minas. Chamávamos muito a atenção dos mineiros e foi bem estranho passar por eles como se fosse um animal estranho e espalhafatoso. Achei um ótima descriçãodo Sr.: Farias: “A mina por dentro é comparável a um labirinto escuro, empoeirado, mal cheiroso, úmido e cheio de gases tóxicos (É recomendado que entremos de máscaras). Existem “andares” na mina que o acesso é dado por escadas improvisadas. Não existe banheiro ou refeitório ou sequer um lugar para atendimento médico caso algum acidente aconteça.”

“Falando em acidente, existem três formas principais de acidente na mina: dinamitar alguma parte de forma errada; soterramento; ou chegar em alguma parte com grande quantidade de algum gás e, por causa de uma centelha da lâmpada, incinerar grande parte da região em que se encontra na mina.”

Animais espalhafatosos

A entrada já era algo de dar medo, como tudo que é diferente e cercado de mistério. Entramos na escuridão com as lanternas acesas e o chão era sempre úmido e seguíamos pelo trilho dos carros de carregar minério. Sempre imaginei uma mina como algo abafado e quente, mas em Cerro Rico havia sempre ventilação e fazia um frio considerável. Eu e Gustavo ajudamos os mineradores a carregar um carrinho que pesava meia tonelada, foi bem difícil, mas conseguimos e demos um refri para eles. Todos os trabalhadores eram bem simpáticos e humildes. Eles não falavam bem espanhol, a língua deles é Aymara. Uma das muitas línguas indígenas faladas na Bolívia e no Peru.

Entrada

Em um momento vi um buraco no meio da parede onde passávamos e pensei “imagina a gente entrando nesse buraco”, então a guia entrou nele e começou a nos chamar para dentro sempre falando “Com despacio, com despacio, chicos” e lá entramos. Era bem pequeno, tivemos que engatinhar e no final eu tive que deitar um pouco, arrastando-me. Passamos por mineradores trabalhando e por lugares cada vez mais inusitados como uns buracos no chão que possuíam escadas rústicas. Conhecemos um dos deuses dos minerados, O Tio (ou diabo), que para eles é o Deus que manda na mina. Todo ano há rituais de oferendas para o Tio onde eles sacrificam lhamas, oferecem folha de coca, álcool e outras coisas. Fizemos um ritual lá em respeito a ele. Rezamos umas palavras para ele e para a Pachamama jogando álcool 95% nas pernas do diabo e depois fechávamos o ritual bebendo um golinho (Eu fiz igual o Carioca do Pânico)((foi horrível, porém eu gostei do ritual)).

El tio ou Diabo

Mas uma vez vou usar um trecho do texto do Sr.: Farias que descreve muito bem a situação: “Potosí é uma das cidades mais altas do mundo e é cultural na Bolívia mascar folha de coca para diminuir os efeitos da altitude. Porém, outro efeito da folha de coca é cortar o apetite. E muitos mineradores – se não todos – mascam folhas de coca para ficarem até 24 horas sem comer para não perderem horas de trabalho para no fim do dia ganharam algo em torno de 60 pesos bolivianos – um pouco menos de 20 reais.”

“Dentro da mina tive a oportunidade de conversar com alguns trabalhadores. Um deles uma criança de 13 anos com aparência de um homem de uns 30. Castigado pelo duro trabalho, péssimas condições e uma amargura sem fim. Outro me contou o que comiam e bebiam – folhas de coca. E um terceiro, quando perguntei qual era seu nome, respondeu: “Yo soy ninguno!”. Sim, ele estava certo! Ele não é ninguém. A sociedade o ignora e o explora sem que a maioria das pessoas saiba das suas condições e mesmo os poucos que sabem, não se importam!”

“Há uma lenda que havia tanta prata em Potosí que era possível construir uma ponte com toda a prata extraída que ia da Bolívia até a Espanha. E que morreu tanta gente – e ainda morre – que era possível construir uma ponte de ossos voltando.”

Gustavo(esquerda) e os Mineiros a 5 dias só com folha de coca.

Saímos do interior das minas e fomos explodir a dinamite para alegrar os ânimos. Não acreditei quando a guia me ofereceu para preparar a dinamite, primeiro ela abre a banana e é tipo uma massinha. Então agente amassa bem enrola com o papel de novo e coloca o pavio. Para potencializar colocamos dentro de um saco com um componente químico que não lembro agora. A guia então andou para bem longe de onde estávamos acendeu e veio calmamente a onde estávamos. Imaginei que seria uma explosão bonita, mas excedeu tudo que eu pensei, foi sensacional, incrivelmente forte e barulhenta(adorei).

No final eu achei o passeio muito válido. A mina é muito interessante por dentro e a experiência com os mineiros é tabefe bem dado na cara de nossas vidas confortáveis. Há pessoas lá vivendo uma situação precária. E acabo pensando até onde um ser humano pode fazer o mal ou ser indiferente ao sofrimento do próximo. Faz-me pensar em Deus e o que diabos significa esse sofrimento todo. E aonde eu entro nessa história toda.

Mineiro responsável por explodir dinamites

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Sobre Yuri Mota

Sou Yuri Mota, carioca, estudante de engenharia, mochileiro, amante da boa música,de violão, canto e também amante de robôs e automobilismo. Amo a vida, me considero um privilegiado e gosto de tantas coisas que é difícil resumir aqui. o blog é sobre minhas viagens, minhas impressões e idéias sobre tudo que acontece ou não. Dando uma atenção especial ao estilo de viajar mochileiro, a reflexão sobre o comportamento humano e a pratica de trekking. É isso, leia e comente, por favor.
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5 respostas para MINAS DE CERRO RICO – This is Bolívia

  1. Sr.: Farias disse:

    ehehehe … vi um trecho do meu blog, recebi um pingback… quer dizer que meus esforços tentando divulgar estão dando certo…

    mas a situação é braba mesmo… e passar por dentro dessa mina me abalou. Eu lembro de ficar noites pensando na situação antes de durmir. E ver os olhos encherem de lágrimas ao contar tudo ao meu pai.

    Acho que vale a pena visitar a mina. É uma situação que faz vc refletir, talvez se torne uma pessoa mais crítica.

  2. rodolfo disse:

    é…onde entramos nessa historia?

    gostei dessa foto final, da face, do olhar desse homem.

    um abraço!

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