A ESTRADA DA MORTE

Edu lendo um livro tirado da mais bela das fontes.

Chegamos à estação ferroviária de Santa Cruz de La Sierra, nos despedimos de alguns bons amigos e fomos em direção ao aeroporto na inocente ilusão de seguir o roteiro. Fazia parte do planejamento pegar um vôo Santa Cruz – Sucre no objetivo de evitar a pior estrada da Bolívia e passar meia hora viajando ao invés de as supostas 16 horas. Chegamos ao aeroporto com meia hora de antecedência e todos os vôos estavam lotados e só no outro dia haveria um novo. Mal estar novamente por ter saído do planejamento, por ter que perder mais tempo e pela ignorância nossa de achar que deveríamos seguir o plano. Vou ser mais claro num intuito puramente didático: Não há como planejar as coisas em países como a Bolívia. São poucos vôos, os ônibus são precários e sempre estão fora do horário e com grande risco de quebrarem, pode haver greves, catástrofes naturais e muitos imprevistos. Então eu acredito que é possível planejar algumas coisas sim, mas isso tornaria a viagem menos mochileira e mais turística.

Garota tirando um cochilo no corredor do bus.

Depois de perder o avião voltamos derrotados para a estação rodoviária. Foi nossa primeira vez em uma grande rodoviária boliviana. É um ambiente com bastante gente, muito barulhento e claro chamávamos muito atenção; era engraçado passar e ver que todos ficavam nos olhando (depois de um tempo viajando nos acostumamos). Havia muitos vendedores e eles eram “engraçados” ficavam gritando os nomes da cidades: “POTOSIIIIII, POTOSIIIII, LA PAZZZZ, COPACABAAANNAAAA” com vozes finas e repetidas vezes. E se déssemos o mínimo de atenção eles nos agarravam e nos puxavam até o estande da empresa. Fora os traficantes que vinham com as perguntas “quieres marijuana, cocaína ?” (no comments). No final depois de algumas negociações ficamos conversando com representantes de duas empresas que nos prometiam tudo, desde o banheiro no ônibus até massagistas tailandesas virgens criadas a leite com pêra. Fechamos com o que possuía menos cara de pilantra e fomos almoçar. Saímos, novamente chamando a atenção e paramos no “restaurante mais próximo” não lembro bem o cardápio mais foi nosso também primeiro Menu da viagem. Na Bolívia, Chile e Peru(e arrisco na maioria dos países latinos) eles servem sempre uma entrada, prato principal e as vezes sobremesa ou terceiro prato. Sim, muita comida. A entrada foi uma sopa no estilo canja(razoável) e depois comi um gorduroso filé de frango a milanesa(menos um ano de vida). Depois tomamos banho num banheiro público e ficamos orgulhosos(coisa de mochileiro… rs) e até cantei uns sambas com a Lali e o Gustavo. Depois demos uma volta rápido pelos arredores e provei duas bebidas clássicas da viagem. A Inka Cola, refrigerante que possui um sabor de tuti-fruti com algo mais(até que não é ruim, mas não sou fã de refrigerante) e a Cuba-livre em latinha(disgusting). Voltamos a estação fazendo barulho e cantando trem das onze. Então vimos o ônibus…. hahaha…. uma piada. Sem banheiro, pequeno(como se fosse feito só para pessoas com no máximo 1,65((bolivianos)) ), pneus quase carecas e sem ar(hahaha). Você pode estar chocado mais isso é um tanto comum no país do Evo. Antes de sairmos nos empurraram uma tal de taxa de embarque. Pensávamos que era alguma pilantragem, mas depois descobrimos que era um roubo oficial cobrado para todos que embarcam. Entramos, nos ajeitamos e partimos.

A ESTRADA DA MORTE

Estrada perfeita.

Imaginem a cena… Um ônibus velho e pequeno, com um motorista do tipo dono de açougue barrigudo e com bigode, que com uma mão dirigia o bus e com a outra bebia as latinhas de cerveja. Toda vez que passava uma mulher na rua buzinava e foi o mesmo piloto às 24 horas de viagem. Isso mesmo, 24 horas. No começo da viagem enfrentamos o engarrafamento da cidade e em seguida fomos para as montanhas. O começo da estrada é razoável com um asfalto meio capenga e depois de umas 5 horas de viagem paramos em um posto, não! Restaurante, não! Pousada, não! Uma mistura tosca disso tudo em um vilarejo com pouca luz e bem diferente. Com alguns ambulantes nas ruas de terra. Fui ao banheiro e por sorte apenas para fazer o numero 1 e foi um filme de terror. Banheiro imundo, sem porta, com a privada que não gosto nem de lembrar e quero nem falar do cheiro. A pia era… não… não tinha pia… era um barril de água que servia tanto para lavar a mão quanto para jogar no vaso. A água era estranha. Coitada das meninas, gosto nem de imaginar…

Nem um pouco inclinada.

Também sofremos em relação ao conforto(tanto físico quanto mental) em relação aos passageiros que iam no chão do ônibus. O que alias foi algo que aconteceu em todos os ônibus da Bolívia e alguns do Peru. Não só iam no corredor como iam muitos e ficavam bem apertados com os passageiros sentados. Lembro da Carol reclamando que tinha um garoto deitado com a cabeça debaixo das pernas dela e o Marcão discutindo porque não conseguia esticar a perna por causa de uma tchola cheirosa ao seu lado.

O ônibus partiu do gracioso vilarejo e a estrada era apenas terra e lama, quando havia buracos era a parte boa da estrada. O ônibus começou a feder mais do que antes e ainda não estávamos tão acostumados com isso(porém isso virou rotina e depois de um tempo eu não me importava mais). Atribuo o fedor aos bolivianos mais pobres no ônibus que fediam, a maioria, por parecerem não tomar banho; eles também comiam as comidas oferecidas nas estradas que era algo pastoso, muito fedorento, normalmente com pollo(frango) e arroz, então juntava o fedor da própria comida com o fedor dos peidos, arrotos e outros dejetos provenientes disso tudo(ta com nojinho 02); ao próprio ônibus que tinha cheiro de mofo e só piorava; a nós que suávamos com o calor e não tinhamos ar condicionado; ao biscoito de isopor amarelo que alguns consumiam; e ao Gustavo que suspeito ter um bicho morto dentro dele hehehe.

Paisagem da estrada.

Sinalização perfeita.

Continuando pela estrada agora já de madrugada com todos dormindo ou tentando, percebi que a estrada estava bem difícil e perigosa, mas mesmo assim durmi tranqüilo com o pensamento “eu não posso fazer nada sobre isso então que adianta eu me estressar, vou é dormir’ e dormi… Estava dormindo e então comecei a acordar e meio sonhando percebi que meu corpo estava inclinando para a esquerda mais e mais, inclinando e inclinando… acordei e olhei para a janela e tinha um precipício do lado, acordei e tive um momento de medo (what the hell?) então lentamente comecei a inclinar de volta ao normal. Bom… a estrada tem pontos de inclinação onde o habilidoso motorista bêbado consegue passar lentamente e safar, hahahaha só rindo. Terminei de rir comigo mesmo e voltei a dormir (dane-se a merda da estrada). Uns minutos ou horas depois voltei a acordar com o ônibus inclinando de novo e dessa vez para o meu lado direito, xinguei algum palavrão e voltei a dormir. Umas horas depois, bem de madrugada acordei porque senti que o ônibus parou (o que seria dessa vez?). O ajudante do motorista (também bêbado) tinha saído do veículo e estava orientando o motorista na neblina pois ele não enxergava nada. Então fomos guiados pelo ajudante por entre os penhascos por um tempo considerável (não sei ao certo porque dormi). Acordei pela última vez na noite com mais uma parada que dessa vez não entendi o porquê, vi a Renata olhando para todo mundo com uma expressão desolada, acho que ela não viu que eu estava acordado, virou e ficou numa posição de dormir e eu dormi novamente (depois ela contou que estava morrendo de medo dos muitos penhascos que passamos e não viu ninguém acordado para acudir ela, tadinha((isso não é ironia)) ).

Motorista sempre respeitando o limite de velocidade.

Acordando pude ver melhor a “estrada” e se tinha alguma dúvida que essa era viagem mais perigosa da minha vida, não tive mais. Eram crateras, passagens que mal cabiam o ônibus, lugares onde o veiculo cruzava literalmente os rios, varias placas de “atención, carretera peligrosa”, pontes com faixas em amarelo escrito “puente em construccion” e outras coisas parecidas. A paisagem era selvagem e meio desértica, nada parecida com qualquer coisa que já vi no Brasil. Quando sol estava no meio do céu nublado, o ônibus parou, o motorista disse a palavra tão significativa, “baño”(banheiro). Descemos e não vimos nenhum tipo de habitação, era só mato, mais ônibus parados, fazendas e montanhas bem ao fundo. Novamente as meninas sofreram um bocado com a situação. Eu até que gostei de fazer o número um ao ar livre, hehehe. Eu, Edu e Gustavo percebemos um movimento estranho a frente na estrada. Fomos verificar e vimos uma ponte construída pela metade e uma estrada adaptada construída como se estivesse desviando da ponte. O problema é que tal caminho estava pura lama e os ônibus e caminhões não conseguiam passar sem ficarem atolados. Então eles se uniram e começaram a jogar terra na estrada, por isso havíamos parado naquele ponto, para consertarem o caminho. Hahaha, desculpe mas só rindo mesmo. 40 min depois e então conseguimos passar. Mais algum tempo depois chegamos a Sucre, a cidade me pareceu simples e não fomos para o centro onde dizem ser bonito (o mais bonito da Bolívia). Bom, o que eu vi foram as famosas casas e apartamentos sem emboço e nem pintura, só tijolos. Tudo bem simples e vários carros Japoneses. Chegamos a estação, as meninas puderam ir a um banheiro razoável e continuamos. O motorista obviamente não foi trocado e eram mais 3 horas de viagem. Para o nosso alivio a estrada era bem asfaltada e a paisagem bem bonita. Achei incrível que subimos muitos nas montanhas pensei que depois iríamos descer de novo, porém continuamos plano e plano e plano. É uma cadeia de montanhas onde há uma grande planície, algo totalmente impossível no nosso Brasil sem montanhas, achei incrível e fiquei observando isso até chegarmos em Potosi. Mas essa é outra história para outro post.

baño, restaurante e pousada.

O que mais posso dizer? Foi uma das melhores experiências da minha vida, podem me chamar de maluco, mas esse é tipo de coisa que nos fortalece, nos faz da valor as coisas realmente importantes e depois de uma viagem dessas já não mudamos o humor por frescuras ou coisas pequenas. Não aconselho isso a pessoas de mais idade ou sem paciência, essa é a pior estrada da Bolívia, mas exemplificam bem as longas viagens no país, muitas vezes isso acaba mal com pessoas seriamente feridas. A alternativa é o avião que é estupidamente mais caro. Para mim é uma viagem obrigatória para um mochileiro.

Custos:

Ônibus da Morte: Uns R$ 20,00 não lembro bem.

Lanche: R$ 5,00

De avião seria R$ 140,00

Pontes perfeitas.

* Não quero de maneira alguma fazer uma generalização em relação ao povo boliviano, sobre eles serem sujos. Vi muitos, principalmente nas pequenas cidades, que não estavam cheirando bem e pareciam não ter os mesmo hábitos higiênicos que nós temos. Falo dos mais pobres que são muitos por lá. Mas é claro, não faço idéia de como isso funciona, falo dos que vi e apenas isso. Apenas os que tive o prazer de cheirar. Sem ofensas.

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Sobre Yuri Mota

Sou Yuri Mota, carioca, estudante de engenharia, mochileiro, amante da boa música,de violão, canto e também amante de robôs e automobilismo. Amo a vida, me considero um privilegiado e gosto de tantas coisas que é difícil resumir aqui. o blog é sobre minhas viagens, minhas impressões e idéias sobre tudo que acontece ou não. Dando uma atenção especial ao estilo de viajar mochileiro, a reflexão sobre o comportamento humano e a pratica de trekking. É isso, leia e comente, por favor.
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